Pessoas que chamam a ciência de “cartesiana” e “positivista” são cotadas para o prêmio Nobel de Filosofia

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Não é de hoje que a The University of Facebook vem formando uma série de profissionais nas áreas de economia e política. Agora, de forma não surpreendente, o Facebook também está formando profissionais na área de filosofia e tecnologia, e são eles os candidatos para o prêmio Nobel.

Em uma série de publicações contra a pseudociência, realizadas por uma página promotora da ciência e do pensamento crítico, filósofos de Facebook comentaram, fazendo alusão à ciência, de que ela é “cartesiana e positivista”, porque, segundo um dos autores, “a ciência está fechada em um dogma materialista que cega os cientistas”.

Esses filósofos endossam o filosofismo, que é a crença de que a filosofia pura é mais confiável do que a ciência. Eles atacam qualquer descoberta científica que afirme existir alguma diferença biológica entre os gêneros, porque, segundo uma das ativistas do movimento, “a biologia é coisa do século passado“. Para eles, o construtivismo social, a crença de que a verdade científica é uma construção social, é o princípio filosófico mais profundo para explicar toda a realidade.

Para esses filósofos, a ciência seria cartesiana, porque usa a matemática para exatificar o comportamento individual e social, algo que, segundo eles, não seria possível, porque os seres humanos são subjetivos. Por esta razão, coisas como a neurociência social, a neuromatemática, a psicologia social e a sociologia matemática não seriam nem ao menos concebíveis.

Os filosofistas acreditam que as suas crenças estão acima das evidências científicas. Assim, de maneira convincente, tal como um matemático quando assume um conjunto de axiomas, eles asseguram que suas crenças são evidentes.

Quando são confrontados às evidências, eles asseguram que a “verdade depende do contexto histórico e social”, e, portanto, “todo sujeito deve construir a sua própria verdade”. Assim, eles justificam o seu construtivismo social e a acusação de cartesianismo na ciência moderna.

Em suas críticas mais conhecidas, os filosofistas acusam ainda a ciência de ser positivista. Em especial, eles acreditam que o problema da ciência é a sua preocupação com a objetividade e o rigor sintático, algo que é tratável através da lógica-matemática.

Para os filosofistas, devemos: (a) abraçar o mistério da mente humana, porque o espírito é a força motriz – isto é, a consciência humana (misticismo); (b) descartar qualquer pretensão de objetividade nos estudos sociais para abraçar alguma forma de subjetivismo, porque o comportamento individual e social é subjetivo (subjetivismo); (c) tratar todas as formas de conhecimento como igualmente válidas (relativismo epistemológico), porque (I) o conhecimento milenar é usado até hoje, (II) a ciência não sabe tudo, (III) tudo que era ciência agora é pseudociência, (IV) a ciência matou negros e pobres (eugenia e darwinismo social) e (V) a ciência criou a bomba atômica.

Apesar desses pensadores estarem sendo cotados para o prêmio Nobel de Filosofia, acredito que eu deva alertar o leitor desavisado de que acredito que suas ideias sejam completos disparates contra a ciência e a inteligência humana. Porque eles ignoram que: (a) a matemática também trabalha com probabilidades, assim como a mecânica quântica; (b) a sociologia matemática consegue quantificar informações de certos comportamentos através do auxílio de ferramentas de Big Data e Data Science para construir modelos matemáticos precisos; (c) existem modelos computacionais e matemáticos do comportamento e do cérebro humano no campo da psicologia e neurociência; (d) o materialismo é o princípio filosófico que, junto com o realismo científico, favorece a investigação científica, porque, ao pressupor que a realidade é cognoscível, instiga a curiosidade do pesquisador na busca de explicações profundas – apesar de serem imperfeitas, são melhoráveis – sobre a realidade; (e) o positivismo lógico é uma corrente filosófica que está morta, e o seu problema não é o de ser a pioneira na análise conceitual e elucidação das teorias científicas através da lógica e matemática, mas o de pressupor a eliminação da metafísica (ou ontologia) no papel da ciência (ou seja, eliminar a clarificação de conceitos usados na ciência, tal como “espaço”, “tempo”, “propriedade”, “realidade”, etc.) e aderir ao antirrealismo sob a influência do fenomenalismo de Hume, Kant e Berkeley; (f) o fato da ciência não saber tudo, não significa que não sabemos nada, ou que não existem falsidades, ou que não temos verdades parcialmente verdadeiras sobre a realidade, ou que devemos abraçar qualquer crença, por mais absurda que seja, por razões estéticas, emocionais ou falta de evidência; (g) a eugenia e o darwinismo social começaram nos Estados Unidos, e não na Alemanha nazista, apesar de serem hipóteses, inicialmente baseadas em interpretações equivocadas da teoria da evolução por Francis Galton e Herbert Spencer, e discutida por pesquisadores da época nos primórdios da antropologia evolucionista, elas nunca alcançaram o status de teorias científicas. Em resumo, o problema não foi a ciência, mas a política, porque os seus adeptos abraçaram hipóteses sem comprovações experimentais, que acabaram mostrando-se falsas; (h) existem diferenças profundas entre ciência e tecnologia, que são discutidas no campo da filosofia da ciência e da tecnologia. A bomba atômica é o resultado do mau uso da tecnologia, e não da ciência, em uma sociedade ética e politicamente decadente.

Nota do Autor

A única mentira é o fato de que os filosofistas irão receber algum prêmio equiparável a um Nobel. No melhor dos casos, eles são falastrões que deturpam a ciência e subestimam a inteligência humana através de jargões acadêmicos. Por esta razão, não confie nas pessoas que chamam a ciência de “cartesiana” e “positivista”, porque, como diria Jesus Cristo, “eles não sabem o que fazem”.

3 COMMENTS

  1. Kkkk rachei com essa…
    Realmente, e acrescente o número de filósofos hoje em dia que possuem o doutorado em física e matemática…

  2. Gostei do artigo, mas imaginava que ele seguiria por um outro rumo. Existe um “senso comum” em relação ao pensamento de René Descartes, taxando-o de materialista, de responsável pela colonização, pela destruição do meio ambiente etc. Porém, ao contrário, o pensamento de Descartes exposto em suas meditações é espiritualista, uma vez que, através de seu método, ele “comprova” racionalmente a existência do espírito ou da vida após a morte, de Deus e do mundo material. Ao mesmo tempo, seu sistema filosófico diferencia-se do empirismo e do idealismo. Se a ciência contemporânea fosse cartesiana, aceitaria a influência do espírito sobre o corpo, pois, apesar de considerar que o espírito não está ligado ao cérebro/matéria (visão dualista), ele afirma em suas cartas à princesa Elisabeth, quando a mesma se manifesta pessimista com os médicos de sua época, que ela deve procurar os “remédios da alma”. Enfim, o “certo” seria esse site chamar Descartes de “pai da pseudo-ciência” e não os “filosofistas”, como os que foram citados no artigo, afirmar que a ciência é cartesiana.

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